Imigração venezuelana causa impactos negativos à primeira infância em RR

Um dos reflexos mais impactantes da crise imigratória em Boa Vista aconteceu na área da saúde, o que atingiu diretamente a primeira infância, faixa etária que abrange crianças de zero a seis anos de idade. Só para se ter uma ideia do drama vivido pelos boavistenses, desde a explosão do fluxo imigratório, entre 2015 e 2017, o Hospital da Criança Santo Antônio (HCSA) viu o número de atendimentos a crianças estrangeiras aumentar exponencialmente. Hoje elas representam 70% dos atendimentos.

De acordo com dados da administração municipal, depois que os venezuelanos começaram a entrar no Brasil de forma mais intensa, a partir de 2016, houve um aumento de 92% no numero de consultas pré-natal até 2018.

Achegada em massa de estrangeiros à capital roraimense causou, como não poderia ser diferente, um impacto significativo nas finanças da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), que tem orçamento próprio. Nos meses de maio, junho e julho de 2018, por exemplo, todo o complexo de unidades básicas de saúde de Boa Vista realizou 213.554 procedimentos. No mesmo período de 2019, esse número saltou para 323.711, o que corresponde a um aumento de 34%.

Devido ao intenso fluxo de crianças com doenças graves, foi preciso improvisar leitos nos corredores do Hospital da Criança

Segundo Armando Santos, diretor de planejamento da SMSA, o impacto financeiro do fluxo imigratório nas finanças do município é proporcional ao aumento no numero de procedimentos realizados nas UBS da capital. “Nós não podemos negar atendimento por causa da nacionalidade das pessoas. Nós estamos atendendo e vamos continuar a fazê-lo”, disse Santos.

A decisão da administração municipal de atender a todos, basileiros e imigrantes, indistintamente, é diametralmente oposta ao pensamento dos vereadores de Boa Vista, que aprovaram o projeto de lei de autoria do vereador Júlio Cezar de Medeiros (Podemos), estabelecendo um percentual obrigatório de 50% para atendimento de brasileiros nos postos de saúde da capital. O projeto padece de inconstitucionalidade, mas, mesmo assim, foi aprovado.

O setor de emergência do Hospital Santo Antônio, em Boa Vista tem experimentado um fluxo constante de mães com crianças de todas as idades em busca de tratamento. A grande maioria delas é de venezuelanas que entraram no Brasil com os filhos doentes. Patologias como sarampo, catapora, tuberculose e pneumonia voltaram a apresentar alto índice de ocorrência em Boa Vista.

Tornou-se comum mães procurarem o HCSA com crianças acometidas de doenças como pneumonia, tuberculose, sarampo e até casos de câncer

Mas o quadro é ainda mais preocupante, pois junto com o ressurgimento dessas doenças nas crianças, chegaram outras ainda mais graves, como câncer, hidrocefalia, problemas cardíacos e neurológicos. Tudo decorrente da situação de miséria em que vivem os venezuelanos. Os números imprecisos da Operação Acolhida, mantida pelo Exército Brasileiro, não abarcam essa realidade gritante das crianças que chegam a Boa Vista em busca de socorro.

A venezuelana Darlene Marques, uma jovem mãe de 16 anos, está com a filha internada no Santo Antônio desde o dia 16 de novembro. A criança, de apenas 10 meses, entrou na unidade com um quadro de diarreia e vômito. A situação de Darlene é um recorte do que acontece com outras centenas de mulheres. Ela não tem casa. Também não está em nenhum dos 11 abrigos mantidos pela Operação Acolhida. Sua morada, por enquanto, é a Rodoviária Internacional de Boa Vista.

Mesmo sendo acolhidas com zelo pelos profissionais do Hospital santo Antônio, mães choram nas filas devido às condições dos filhos. Conforme Neide Tavares, coordenadora do setor de emergência da unidade, há o caso de uma mãe venezuelana com cinco filhos, três deles nascidos no Brasil, que comparece ao hospital em média sete vezes por mês em busca de atendimento.