A morte de Isolina

Dona Isolina morreu de repente. Causa ninguém sabia. O enterro estava marcado. Seria na manhã da segunda-feira, que a tirar por aquele domingo de setembro, seria abafada. Na casa da defunta poucos choravam. Conformação total: melhor ir logo. Pra quê sofrer mais neste mundo desgraçado.

Amanheceu. Dia do enterro. Cânticos fúnebres tomam conta da casa. Nuvens pesadas no céu. Ameaça de cair um dilúvio.

Antes de sair o enterro, chega o laudo do Instituto Médico Legal. Isolina havia morrido de meningite. Nova epidemia amedrontava a cidade a exigir a adoção de políticas de contenção.
Sai o cortejo decorado com coroas de flores mirradas. Uma metáfora do que fora dona Isolina em vida.

Muita chuva. Chão barrento escorregadio. Caixão pesado. O corpo miúdo de Isolina parecia ter ganhado peso. O peso da morte. O arrastar do cortejo denuncia um problema antigo da cidade. A chuva que cai mostra que as ruas do bairro onde morava Isolina são inabitáveis. Nem poderiam ser chamadas de ruas. Estrutura nenhuma. Vergonha para o poder público. Pelo menos deveria ser.

Segue o cortejo molhado. Cânticos molhados ecoam no ar. Morte molhada. Chegada no cemitério. Uma tristeza suja de barro toma conta do ambiente. Pás de barro encharcado são o último peso que Isolina levará sobre seu corpo.

Olhares acostumados com a desgraça falam sem dizer palavra: Isolina se foi. Melhor assim. Sua vida já não fazia sentido. Vivia reclamando da sorte, da moradia indigna, da rua barrenta. Reclamava da falta de dignidade imposta pela desumanidade dos que ditam os destinos da cidade.

Um sussurro entre dentes se destacou no silêncio daquela manhã úmida: “Durma em paz Isolina. E peça a Deus que dê juízo e vergonha aos governantes deste mundo”.

(Este texto é uma releitura do Poema “O enterro de Isolina”, de Cecília Meireles)

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